terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Psico-Oncologia: um apoio fundamental

O apoio ao doente e sobrevivente de cancro e família constitui um dos desígnios primários da Liga Portuguesa Contra o Cancro e é concretizado através da disponibilização de serviços gratuitos, nomeadamente apoio psicológico e emocional, entre outros.

 

Artigo da responsabilidade da Dra. Sónia Silva, Psicóloga Clínica; responsável pela Unidade de Psico-Oncologia da Liga Portuguesa Contra o Cancro – Núcleo Regional do Centro

 

O cancro é cada vez mais um relevante problema de saúde pública. Só em 2018, estima-se que em Portugal tenham sido diagnosticados cerca de 58.000 novos casos de cancro e ocorrido 29.000 mortes (GLOBOCAN, 2019). O número de sobreviventes de cancro tem vindo a aumentar, o que não deixa de acarretar inúmeros desafios para doentes, cuidadores, profissionais de saúde e sociedade em geral, em virtude da morbilidade física, psicológica e social, resultante da doença e do seu tratamento.

Aproximadamente 25 a 35% dos doentes com cancro apresentam sintomas clinicamente significativos de sofrimento emocional ou “distress, termo anglo-saxónico que remete para uma experiência subjetiva de natureza psicológica (cognitiva, comportamental, emocional), social e/ou espiritual, que varia de sentimentos comuns de vulnerabilidade, tristeza e medo, a problemas que podem tornar-se incapacitantes.

Este sofrimento foi declarado em 2006 como o 6º sinal vital, requerendo, portanto, avaliação e monitorização, o que, por sua vez, permitirá identificar os doentes em maior risco de desenvolver alguma perturbação emocional e, consequentemente, com maiores necessidades de intervenção psicológica.

Dimensões psicossocial e psicobiológica

A Psico-Oncologia é a disciplina que se centra no estudo de uma dimensão psicossocial e de uma dimensão psicobiológica do cancro. Enquanto área de interface entre a Psicologia e a Oncologia, tem por principais objetivos estudar e intervir sobre as respostas psicológicas dos doentes com cancro, suas famílias e cuidadores, em todas as fases da doença, assim como estudar a influência dos fatores psicológicos, comportamentais e sociais no processo de doença, nomeadamente na sua origem e curso.

São vários os sintomas psicológicos que, identificados, merecem ser alvo de uma avaliação mais profunda e, eventualmente, de uma intervenção psicológica especializada. Por exemplo, sentimentos persistentes de tristeza, culpa ou desespero; agitação, ansiedade e irritabilidade; e perda de interesse nas atividades habituais, podem ser indiciadores de um quadro depressivo, pelo que devem ser monitorizados.

É importante referir que estes sentimentos são, na maioria dos casos, normativos e tendem a ser mais acentuados na fase inicial após o diagnóstico, diminuindo progressivamente à medida em que o doente vai encontrando recursos para fazer face aos desafios e exigências inerentes ao curso natural da doença e tratamento.

Caso permaneçam por períodos muito prolongados e interferiram com o normal processo de adaptação psicológica, poderão mesmo colocar em causa a adesão terapêutica e a eficácia do tratamento.

Outros sintomas como o isolamento ou desinvestimento das relações sociais, nomeadamente do relacionamento íntimo e sexual com o(a) companheiro(a), dificuldade em lidar com a autoimagem e autoestima diminuída, são outros aspetos que não podem ser negligenciados.

Além disso, situações de recusa em aceitar o diagnóstico e as mudanças que a doença impõe na vida de doentes e familiares, dificuldade em lidar com o medo e incerteza quanto ao futuro e ao prognóstico, problemas comunicacionais com os profissionais de saúde e gestão de processos de luto, no caso de familiares e cuidadores, são mais alguns motivos subjacentes aos pedidos de apoio psicológico.

Número de especialistas é muito escasso

A investigação tem demonstrado um benefício da intervenção psicológica no que respeita ao bem-estar e qualidade de vida dos doentes oncológicos e, indiretamente, nos indicadores biológicos e até na sobrevida. Por exemplo, a intervenção psicológica visa uma redução da sintomatologia ansiosa e depressiva, sintomas que se acredita afetarem a sobrevivência ao suprimir os sistemas imunológico e neuroendócrino. Ao reduzir esta sintomatologia, a intervenção psicológica poderá estar a conferir, segundo alguns estudos, um benefício de 1 a 2 anos de vida aos doentes que dela usufruem.

Os Centros Regionais do Instituto Português de Oncologia Francisco Gentil dispõem de profissionais de Psicologia e Psiquiatria especializados em Psico-Oncologia. Outros hospitais, com serviços de Oncologia, terão profissionais daquelas áreas profissionais a quem poderá ser realizada a referenciação. No entanto, é sentido que o número de profissionais é muito escasso ou inexistente, não suprindo as necessidades de apoio psicológico aos doentes que o requerem e menos ainda às famílias e/ou cuidadores que, na trajetória da doença, figuram como “doentes escondidos”.

Serviços gratuitos

A Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) é uma organização da sociedade civil com vários objetivos direcionados para a problemática da doença oncológica. O apoio ao doente e sobrevivente de cancro e família constitui um dos seus desígnios primários e é concretizado através da disponibilização de serviços gratuitos, nomeadamente apoio psicológico, emocional (entreajuda), jurídico, ocupacional, material, entre outros.

Em 2009 e fruto da perceção das lacunas existentes em Portugal neste domínio de intervenção, e com o apoio inicial da Fundação AMGEN, a LPCC constituiu Unidades de Psico-Oncologia que visam a disponibilização de apoio especializado e gratuito a doentes oncológicos, extensível a familiares e cuidadores, e aos profissionais de saúde.

O balanço destes 10 anos tem sido extraordinariamente positivo. Atuando de forma descentralizada e numa perspetiva de proximidade, estas Unidades estão presentes em 45 concelhos de Norte a Sul do País, incluindo Açores e Madeira. Até ao primeiro semestre de 2019, foram cerca de 7500 os utentes que beneficiaram do apoio psicológico, dos quais cerca de 51% são doentes oncológicos. Foram realizadas mais de 47 mil consultas. Estes números são bastante significativos, sobretudo se olharmos ao facto de se tratar de um serviço “extra-hospitalar”. Por outro lado, e a par de toda a atividade assistencial, foram realizados 12 eventos de natureza científica, alguns de cariz internacional, o acolhimento de estágios académicos e profissionais, um contributo relevante para a formação dos futuros profissionais, assim como o desenvolvimento de um grande número de atividades comunitárias, sobretudo tendo em vista a sensibilização para a prevenção e diagnóstico precoce do cancro.

Além do apoio psico-oncológico gratuito, a LPCC dispõe também de outras áreas de intervenção no apoio ao doente e família, como é o caso do apoio material, em situações de comprovadas dificuldades económicas no agregado familiar, ou, por exemplo, do apoio jurídico, quando são colocados em causa os direitos dos doentes.

São vários os canais através dos quais o doente ou familiar pode requerer qualquer um destes serviços, destacando o site – www.ligacontracancro.pt ou a Linha Cancro, cujo número é o 808 255 255.


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Cancro do rim: importância da deteção precoce

Quanto mais se souber sobre o cancro do rim, sobre a urgência de diagnosticar precocemente, mais alerta estarão os portugueses para a importância de fazer exames de rotina e de pedir ao seu médico de família que inclua nesses exames a realização de uma ecografia abdominal.

Artigo da responsabilidade do Prof. Fernando Calais da Silva, Chairman no Grupo Português de Génito-Urinário

 

Todo os anos, um milhar de portugueses recebe um diagnóstico tão assustador como inesperado: cancro de rim. Assustador pela própria palavra cancro. Inesperado porque este é um tipo de carcinoma que não tem sintomas, sendo, na maior parte das vezes, descoberto por acaso, na realização de uma ecografia abdominal motivada por outras queixas.

Na minha carreira médica, pude testemunhar como a notícia de um cancro desperta nos doentes um novo tipo de relação com o tempo. O tempo – com a família e amigos, para fazer o que mais se gosta, para desfrutar da companhia de quem é mais querido – adquire um valor inestimável. Enquanto chairman do Grupo Português de Génito-Urinário e clínico, gostaria que esse valor aumentado do tempo se verificasse também no sentido da urgência em rastrear e detetar carcinomas normalmente discretos, como é o caso do cancro do rim.

Ninguém está imune

O cancro do rim representa 2 a 3% dos tumores malignos no nosso país, estimando-se que cause 200 mortes todos os anos. Embora possa aparecer em qualquer idade, são as pessoas acima dos 50 anos as mais afetadas e mais homens que mulheres. Como em qualquer tipo de tumor, há fatores de risco: além do género e idade, o tabaco, a obesidade ou o consumo crónico de fármacos. Ou seja, pela percentagem pequena de casos no global dos tipos de cancro, podemos todos ser tentados a pensar que não nos atinge. Mas, pelos números da sua epidemiologia, percebemos que ninguém está imune.

É que, sendo mais raro do que outros tipos de tumores, como o da próstata, são detetados em Portugal mil novos casos de cancro do rim, todos os anos. Estes são apenas aqueles que são detetados, porque se não for “apanhado” através da Imagiologia – por exemplo, numa ecografia de rotina –, este tumor passa completamente despercebido. Isto acontece porque, na sua fase inicial, o cancro do rim não apresenta quaisquer sintomas. É apenas quando já está em fases muito avançadas e difíceis de tratar, com metástases, que surge a tríade sintomática: o aparecimento de sangue na urina, dores lombares e uma massa que se sente na palpação. Uma fase que, atualmente e felizmente, dificilmente se atinge sem conhecimento da doença.

Deteção precoce melhora o prognóstico

Hoje, pelas razões que referimos acima de acesso a meios de diagnóstico complementares, nomeadamente de Imagiologia, nos centros urbanos já há algum sucesso na deteção precoce da neoplasia do rim. Nos locais mais rurais, do interior, no entanto, a maior dificuldade de acesso aos cuidados faz com que o diagnóstico também se atrase mais.

E se, felizmente, está a aumentar gradualmente o número de tumores detetados mais precocemente, é importante alertar que, mesmo nestes casos de deteção mais atempada, podem aparecer metástases dali a 1, 2, 10 ou 15 anos. É algo que tentamos prevenir na gestão dos nossos doentes, fazendo análises que nos permitem classificar um tumor como tendo risco alto, baixo ou intermédio, nomeadamente de haver um desenvolvimento futuro.

E como é o caso de muitos outros tipos de cancro, quando o carcinoma do rim é detetado de forma precoce, as opções de tratamento aumentam e têm também uma eficácia e perfil de segurança aumentados.

Leia o artigo completo na edição de janeiro 2020 (nº 301)


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Cancro do pâncreas: a crueza dos números e como inverter a tendência

O CANCRO DO PÂNCREAS É O TUMOR MALIGNO DO SISTEMA DIGESTIVO COM PIOR PROGNÓSTICO. E JÁ CONSTITUI, ATUALMENTE, A TERCEIRA CAUSA DE MORTE POR CANCRO NA EUROPA. HÁ QUE RECONHECER E REFLETIR SOBRE ESTA REALIDADE PREOCUPANTE!

 

 

 

Artigo da responsabilidade da Dra Ana Caldeira, Presidente do Clube Português do Pâncreas, secção especializada da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia.

 

Na última década, assistiu-se a um aumento do número de casos de cancro do pâncreas, especialmente em países desenvolvidos. Atualmente, constitui a terceira causa de morte por cancro na Europa. Se nada for feito para inverter esta tendência, até 2020 ele irá ocupar o segundo lugar desta lista.

DESVENDANDO A CRUA ESTATÍSTICA…

O cancro do pâncreas é a terceira neoplasia do sistema digestivo mais frequente em Portugal, logo a seguir ao cancro do cólon e do estômago. Existe uma maior prevalência no sexo masculino, sendo a mortalidade global mais elevada entre os 75-79 anos de vida. Contudo, parece haver uma tendência para um número crescente de mortes em idades cada vez mais precoces.

Atualmente, a taxa média de sobrevida aos 5 anos é de 3% a 9%. A expetativa de vida no momento do diagnóstico é de apenas 4,6 meses e o número de mortes por cancro do pâncreas quase duplicou nas últimas três décadas.

Na verdade, o cancro do pâncreas tem a menor taxa de sobrevivência de todos os cancros na Europa!

Num estudo realizado recentemente em Portugal, com análise do número de mortes por cancro do pâncreas ao longo dos últimos 25 anos, concluiu-se que este número duplicou, tendo em 2017 ultrapassado as 1500 mortes por ano. No mesmo estudo, conclui-se que em Portugal existem diferenças geográficas significativas na incidência deste tipo de cancro, havendo maiores taxas de mortalidade nas regiões dos Açores e do Alentejo (e, em menor grau, da Madeira). A elevada prevalência de fatores de risco como o tabagismo ativo e excesso de peso nestas regiões pode, em parte, justificar as assimetrias registadas.

Apesar da estatística devastadora, a consciencialização pública e política sobre esta doença está muito aquém do desejável e parece ter sido negligenciada durante décadas. Os planos nacionais de cancro raramente mencionam o cancro do pâncreas e o financiamento da investigação nesta área é incrivelmente baixo para um cancro tão mortal.

É urgente o investimento nesta área! Com o aumento da investigação, podemos melhorar a nossa compreensão sobre este cancro tão complexo, identificar ferramentas corretas para alcançar um diagnóstico mais precoce e, finalmente, salvar mais vidas.

COMO SE MANIFESTA? QUE SINAIS E SINTOMAS?

O pâncreas tem uma localização muito profunda, estando situado atrás do estômago, no abdómen superior. Pesa entre 70 a 90 gramas e mede cerca de 15 a 20 cm, sendo a maior glândula do corpo humano. O cancro do pâncreas ocorre quando as células malignas se formam e se multiplicam no tecido pancreático. Existem vários tipos de tumores, contudo o adenocarcinoma é o tipo de cancro do pâncreas mais frequente (95%).

Os sintomas podem ser difíceis de identificar, dependem da sua localização e, geralmente, são vagos e inespecíficos, dificultando o reconhecimento e o diagnóstico precoce da doença. Pode manifestar-se por dor na região superior do abdómen com irradiação para as costas, que agrava após as refeições e na posição de decúbito dorsal. A cor amarelada da pele e urina turva são sintomas mais frequentes nos tumores da cabeça do pâncreas.

Outros sintomas menos frequentes são a comichão, indigestão, alteração dos hábitos intestinais, perda de peso inexplicável, depressão, perda de apetite, fenómenos de trombose vascular ou diabetes de diagnóstico recente. Estes sintomas podem estar associados a outras condições, pelo que não são específicos desta patologia.

O QUE SABEMOS SOBRE OS FATORES DE RISCO?

Estima-se que dois terços dos principais fatores de risco associados ao cancro do pâncreas sejam potencialmente modificáveis, oferecendo uma oportunidade para a prevenção da doença.

O tabagismo está relacionado com 20% de todos os cancros do pâncreas e causa um aumento de 75% em comparação com não fumadores. O risco aumenta com o número de cigarros fumados e o tempo de exposição.

A obesidade contribui para pior prognóstico e taxas de sobrevida. Os indivíduos obesos têm um risco 47% maior de cancro do pâncreas comparativamente aos indivíduos com um índice de massa corporal normal (IMC),

Embora exista um risco aumentado de cancro do pâncreas em doentes com diabetes de longa data, a diabetes de início recente está frequentemente associada a malignidade pancreática. Os indivíduos que foram diagnosticados com diabetes há menos de quatro anos têm um risco 50% maior de desenvolver cancro do pâncreas, em comparação com indivíduos que têm diabetes há mais de 5 anos.

Há evidências acumuladas demonstrando que o consumo excessivo de álcool (quatro ou mais bebidas por dia) está associado ao cancro do pâncreas, nomeadamente se associado à pancreatite crónica. Os doentes com pancreatite crónica, especialmente aqueles que têm pancreatite hereditária, têm um risco aumentado de desenvolver cancro do pâncreas. Aproximadamente 4% dos pacientes com pancreatite crónica desenvolverão este cancro.

O risco de cancro pancreático está aumentado em doentes com história familiar de alto risco (dois familiares de primeiro grau afectados ou 3 familiares com a doença, sendo pelo menos um de primeiro grau) ou com síndromes genéticas hereditárias (pancreatite hereditária, síndrome de Peutz-Jeghers). Pensa-se que até 10% dos casos de cancro do pâncreas estejam relacionados com condições genéticas.

Leia o artigo completo na edição de janeiro 2020 (nº 301)


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segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Esteja atento à desnutrição!

A DESNUTRIÇÃO ASSOCIADA A DOENÇA CARACTERIZA-SE PELA IMPOSSIBILIDADE EM ATINGIR AS NECESSIDADES NUTRICIONAIS ATRAVÉS DA ALIMENTAÇÃO HABITUAL DIÁRIA, E RESULTA NA PERDA DE PESO NÃO PROGRAMADA, ESPECIALMENTE PERDA DE MASSA MUSCULAR.

 

A desnutrição está associada a um pior resultado no desenvolvimento da doença ou no seu tratamento, ao declínio cognitivo e comprometimento do sistema imunitário, a perda de força muscular, aumento do risco de quedas, perda de mobilidade e, consequentemente, perda de autonomia e independência.

Os idosos são um grupo de risco para o desenvolvimento de desnutrição, uma vez que as alterações no metabolismo, associadas ao processo de envelhecimento, tornam-no mais suscetível ao desenvolvimento de desequilíbrios nutricionais. Os números são reveladores, estimando-se que 1 em cada 3 idosos no domicílio se encontre em risco nutricional.

CAUSAS DE DESNUTRIÇÃO

As causas de desnutrição são diversas, relacionando-se principalmente com fatores psicossociais, como a solidão e o isolamento, a depressão e a pobreza, com fatores fisiológicos, como as alterações naturais do envelhecimento do trato gastrointestinal, alteração do paladar e olfato e falta de dentição, e com fatores clínicos, como a polimedicação e a presença de doenças crónicas. Todos estes fatores, isolados ou em conjunto, podem levar à perda de apetite, que se traduz na diminuição da ingestão alimentar.

A alimentação no idoso deverá ser completa, variada e equilibrada, pelo que se recomenda a inclusão dos diferentes grupos alimentares na dieta. O plano nutricional deverá ser elaborado de acordo com as necessidades nutricionais, que são diferentes das do adulto, e tendo em consideração as preferências alimentares do indivíduo.

Igualmente importante é realizar exercício físico, adaptado caso necessário, beber pelo menos 1,5 litros de água e não ficar mais de duas a três horas sem comer, não excedendo as oito horas de jejum noturno. Dietas restritivas devem ser evitadas, de modo a prevenir estados de desnutrição e o declínio funcional associado.

NECESSIDADES NUTRICIONAIS

As necessidades nutricionais devem ser calculadas individualmente, tendo em conta, entre outros, o estado nutricional, o nível de atividade física e a condição de saúde.

Se para um adulto saudável recomenda-se a ingestão de 0,8 a 1 g de proteína/kg de peso por dia, para um idoso recomenda-se a ingestão de 1 a 1,2 g de proteína/kg de peso por dia, o que significa que o idoso necessita de um aporte de proteína superior a um adulto.

Na presença de malnutrição ou risco de malnutrição, as necessidades proteicas no idoso sobem para 1,2 a 1,5g de proteína/kg de peso por dia. O aumento destas necessidades deve-se à diminuição da massa muscular, à presença de doenças crónicas e às alterações do metabolismo específicas do envelhecimento.

No entanto, apesar de existir um aumento nas necessidades, sabe-se que o idoso ingere diariamente menos proteínas que um adulto. O aporte proteico inferior às necessidades origina diminuição na força e função muscular, o que aumenta o risco de quedas e diminui a mobilidade, que está diretamente associada à manutenção da qualidade de vida.

NUTRIÇÃO ENTÉRICA

A nutrição clínica, no caso específico da nutrição entérica, consiste em soluções nutricionais indicadas para a terapêutica nutricional de casos de desnutrição associada a doença. Destina-se a uma alimentação especial com fins medicinais específicos, com o objetivo de satisfazer as necessidades nutricionais de quem não as consegue alcançar apenas com a alimentação habitual.

A suplementação nutricional oral é recomendada como complemento da alimentação para situações em que não seja possível atingir as necessidades nutricionais somente com a alimentação habitual, mesmo após adequação alimentar. Tem como objetivos atingir as necessidades nutricionais diárias e melhoria do peso corporal, levando à redução do risco de complicações, como o desenvolvimento de úlceras de pressão, e readmissões hospitalares.

Para casos específicos, como na presença de diabetes, disfagia, doença renal, doença hepática entre outros, existem suplementos nutricionais orais específicos para colmatar as necessidades nutricionais igualmente específicas destas condições. Outro exemplo, são idosos com fratura da anca, que no pós-operatório beneficiam da ingestão de suplementos nutricionais orais para melhorar a ingestão alimentar e reduzir o risco de complicações.

A terapêutica nutricional recomendada a idosos desnutridos ou em risco nutricional deve fornecer pelo menos 400 kcal por dia e um teor de proteína igual ou superior a 30 de proteína por dia.

ACONSELHAMENTO NUTRICIONAL

O aconselhamento nutricional detalhado, ao doente e familiares/cuidadores, é fundamental para assegurar a ingestão nutricional adequada e a adesão aos suplementos nutricionais. É necessário explicar razões para a toma, os benefícios da suplementação nutricional, que existem diferentes sabores disponíveis e apresentações (líquidos, pudim, em pó), e o modo de utilização (ex.: entre as refeições, introduzir a suplementação de forma progressiva, sabor melhorado quando tomado frio, agitar antes de abrir).

A juntar às necessidades nutricionais específicas para cada patologia há que ter em conta que cada indivíduo experiencia diferentes sintomas e tem diferentes preferências alimentares, pelo que a adequação nutricional terá sempre de ser individualizada e monitorizada frequentemente. No caso da suplementação nutricional há que ter em conta a variedade de sabores e consistências disponíveis, para garantir durante todo o tratamento uma correta adesão à terapêutica nutricional.

A manutenção de um estado nutricional adequado é fundamental para a saúde e bem-estar dos idosos, e tem um grande impacto no processo de envelhecimento. É importante estar atento aos diferentes fatores que promovem a depleção do estado nutricional do idoso e atuar precocemente.

 

 


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Alimentação e doenças hemato-oncológicas

Por Dra. Inês Almada Correia e Dra. Diana Alexandre, Nutricionistas, Associação Portuguesa Contra a Leucemia

As doenças hemato-oncológicas (leucemias, linfomas, entre outras) são um grupo heterogéneo de neoplasias, cuja influência no estado nutricional é variável. Resulta dos efeitos que a doença ou o tratamento podem ter na ingestão dos alimentos, na absorção e/ou perdas de nutrientes e no metabolismo energético e proteico. A intensidade e a duração do tratamento antineoplásico (quimioterapia, seguida ou não de transplante) podem agravar o estado nutricional de indivíduos inicialmente bem nutridos.

É fundamental que seja assegurada uma alimentação equilibrada em todas as fases da doença, de forma a prevenir ou minimizar a perda de peso e de reservas de nutrientes e, com isso, promover uma melhor resposta aos tratamentos e seus efeitos secundários, reduzir o risco de infeções e manter a força e a vitalidade. As necessidades nutricionais individuais devem ser alcançadas através da ingestão dos alimentos dos diversos grupos (ex. hortícolas, frutas, cereais e tubérculos, carne/peixe e ovos, laticínios, leguminosas, óleos e gorduras), nas devidas proporções, sem que sejam feitas restrições desnecessárias e sem recorrer a suplementação, salvo se indicação expressa.

Um efeito secundário que é comum a este tipo de doenças, pela sua natureza ou pelo tratamento associado, é a diminuição do sistema imunitário e, como tal, os doentes ficam mais suscetíveis a infeções. No que diz respeito à alimentação, devem ser assegurados cuidados adicionais de higiene e segurança alimentar para reduzir ao máximo o número de bactérias e outros micro-organismos que são veiculados nos alimentos e que podem ser causadores de doenças. Em casa, esses cuidados passam por garantir medidas de higiene na preparação dos alimentos, confeção e conservação adequadas. Nos dias de hoje, já não são muitos os alimentos a excluir ou a evitar, uma vez que a indústria alimentar proporciona opções seguras do ponto de vista microbiológico (por exemplo, alimentos pasteurizados, embalados individualmente).

Nos workshops de “culinária para doentes hemato-oncológicos”, promovidos pela Associação Portuguesa Contra a Leucemia e em parceria com a Associação de Cozinheiros Profissionais de Portugal, são abordadas estas questões com mais profundidade e há lugar para por em prática receitas seguras, nutricionalmente equilibradas e deliciosas, contrariando a ideia de que a alimentação em contexto de doença é monótona e sem sabor.

 


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Alimentação do doente oncológico

Uma alimentação saudável pode fortalecer o organismo e reduzir as probabilidades de vir a sofrer de cancro. Porém, se a doença já se desenvolveu, uma nutrição equilibrada constituirá uma ajuda importante.

 

Praticar uma alimentação equilibrada é importante tanto para as pessoas doentes como para as saudáveis. Se nos alimentarmos de forma equilibrada e dermos ao nosso corpo todos os nutrientes que ele precisa, seremos capazes de combater as doenças e manter o nosso corpo com as forças necessárias para ultrapassar afeções graves, como é o caso do cancro.

A importância de um correto suporte nutricional num doente oncológico baseia-se na manutenção de um estado nutritivo adequado, capaz de reduzir as complicações e que proporcione, ao mesmo tempo, sensação de bem-estar.

Prevenir a desnutrição

Determinados tipos de cancro levam a alterações metabólicas que aumentam significativamente o gasto energético do organismo, conduzindo o paciente à perda de peso progressiva e deixando o seu equilíbrio nutricional ainda mais vulnerável. Por isso, é importante um cálculo correto da ingestão calórica diária do paciente oncológico, a fim de compensar este gasto extra causado pela doença e evitando, assim, uma desnutrição acelerada.

Quanto ao número de refeições, não existe um padrão único a seguir: o paciente, simplesmente, deve comer quando tem fome. Este pode passar por fases de inapetência ou obter uma rápida sensação de saciedade com uma refeição muito ligeira. Assim, o ideal é fracionar a dieta em seis ou sete refeições diárias, de pequeno volume cada uma.

Por outro lado, é conveniente utilizar alimentos com alta densidade energética, ou seja, aqueles com alto valor calórico e nutricional, mesmo em pequenos volumes, sendo mesmo de considerar os suplementos alimentares específicos.

Em período de tratamento

Outra questão a ser avaliada são os efeitos colaterais às frequentes sessões de quimioterapia ou radioterapia às quais os pacientes oncológicos são submetidos. Alguns efeitos frequentes são: enjoos, vómitos, perda do apetite e dificuldade para mastigar e engolir os alimentos, principalmente após radioterapias em regiões que afetam boca e esófago.

Muitas vezes, a maneira como o alimento é preparado deverá ser modificada para facilitar a mastigação e a deglutição, como preparações mais pastosas, temperatura adequada e evitar condimentos irritantes da mucosa esofágica e gástrica.

É prudente evitar os alimentos industrializados e, de uma forma geral, todos os alimentos atrás referidos como potencialmente cancerígenos, substituindo-os pelos considerados protetores.

Leia o artigo completo na edição de janeiro 2020 (nº 301)


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Vencer a luta contra o cancro: estamos cada vez mais próximos

As investigações científicas em torno da cura para muitos tipos de cancro avançam a passos largos e firmes. É preciso deixar de pensar que o cancro é sinónimo de doença terminal.  O índice de sobrevivência é cada vez maior e os tratamentos atuais permitem a cura total em cerca de metade dos casos diagnosticados.

 

Num check-up de rotina, uma das análises mostra alguns níveis alterados. O paciente não apresenta quaisquer sintomas, mas o médico decide efetuar mais exames de despiste, os quais acabam por revelar a existência de um pequeno tumor nalguma parte do corpo. Soa, instantaneamente, o alarme do pânico: o tumor é imediatamente relacionado com o cancro.

Contudo, é preciso saber que um tumor não é necessariamente maligno e que, na grande maioria dos casos, tratado atempadamente, pode ter consequências mínimas. A deteção precoce é a aposta mais eficaz na luta contra o cancro. Neste momento, enquanto a cura ainda não é possível em todos os casos, os especialistas insistem que os controlos periódicos de saúde são o melhor instrumento para aumentar as probabilidades de vencer a doença.

Mais de 200 doenças

A designação genérica de cancro abarca mais de 200 tipos de doenças, ou seja, de tumores malignos, também designados por neoplasias. Cada uma possui características particulares, com causas, evolução e tratamento específicos.

As células do corpo humano dividem-se e multiplicam-se de acordo com as exigências de funcionamento do organismo. Subitamente, uma das células sofre uma mutação, muda de forma e todas as suas descendentes surgem danificadas. A divisão descontrolada das células, ao cabo de algum tempo, variável de caso para caso, dá lugar ao um tumor ou nódulo.

Se estas células rebeldes não tiverem capacidade para invadir e destruir outros órgãos, falamos de tumores benignos. Pelo contrário, se as células alteradas, além de crescerem sem controlo, sofrerem novas mutações e adquirirem a capacidade de invadir os tecidos próximos e, inclusive, proliferarem para outras partes do corpo – metástases –, então, falamos de tumores malignos.

A perigosidade de um tumor é determinada pela agressividade das células, isto é, pela maior ou menor capacidade de invasão.

Genética e fatores ambientais

Os hábitos de vida são fundamentais no que se refere ao desenvolvimento de certas patologias e as doenças oncológicas não escapam à regra: fumar aumenta as probabilidades de sofrer cancro do pulmão ou do esófago; o álcool potencia o cancro do fígado e o do estômago; e muitos outros exemplos poderiam ser referidos.

Cerca de 75 a 80% dos casos devem-se a fatores externos; quanto aos restantes 20 a 25%, desconhecem-se os fatores concretos que podem originar o seu aparecimento. Nalguns casos – cerca de 5% –, há uma disposição genética para o desenvolvimento desses tumores, ou seja, herdam dos progenitores genes já alterados. Porém, tal não significa que estes indivíduos desenvolvam necessariamente a doença: apenas a probabilidade é ligeiramente mais elevada.

Prevenção é meio caminho

Muitas pessoas afirmam que nunca vão ao médico porque têm medo que lhes “descubram alguma coisa”… Este tipo de mentalidade constitui um grave erro. Uma das regras principais da prevenção do cancro – e, por sua vez, a melhor forma de diminuir as fatalidades – são os controlos médicos periódicos. Um tumor detetado precocemente tem enormes probabilidades de ser controlado.

A frequência dos check-ups depende da idade da pessoa e do seu historial familiar. No entanto, alguns tipos de cancro mais frequentes têm um padrão especial de rastreio. Assim, por exemplo, para o controlo do cancro do colo do útero, seria prudente que as mulheres efetuassem exames ginecológicos regulares, a partir dos 18 anos de idade. Para a prevenção do cancro da mama, é considerado desejável, de acordo com as recomendações da American Cancer Society, que fizessem, depois dos 40 anos, um exame clínico anual, acompanhado de uma mamografia. Paralelamente, deveriam levar a cabo um controlo pessoal, mais frequente, através da autopalpação mamária em casa.

Quanto ao cancro do cólon, a Organização Mundial de Saúde recomenda o rastreio, tanto a homens como a mulheres, a partir dos 50 anos, se não tiverem antecedentes familiares; caso contrário, será prudente fazê-lo antes.

Independentemente dos rastreios específicos, os especialistas recomendam a realização de check-ups 10 anos antes da idade em que um determinado cancro afetou um familiar direto.

Por outro lado, é imperativo consultar o médico perante qualquer mudança anormal no nosso organismo: o aspeto de um sinal ou cicatriz, tosse sem explicação, transtornos intestinais persistentes ou perda de peso injustificada, para citar apenas alguns exemplos.

Leia o artigo completo na edição de janeiro 2020 (nº 301)


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